Renomados economistas brasileiros alertam que a PEC 65 de 2023, em tramitação no Senado Federal, pode expor o Banco Central à cooptação pelo setor financeiro, comprometendo sua independência e favorecendo a manutenção de juros elevados no Brasil. A proposta, que visa conceder autonomia financeira e orçamentária à autoridade monetária, é vista como um risco à fiscalização e regulação do mercado.

Essa preocupação foi formalizada em um manifesto divulgado nesta semana por um grupo de especialistas, posicionando-se contra a PEC 65 de 2023, que atualmente aguarda votação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado.

Conforme o documento, a proposta institui uma "independência seletiva", afastando o Banco Central do controle democrático exercido por órgãos como o Congresso Nacional, o Tribunal de Contas da União (TCU) e o Poder Executivo. Contudo, mantém a instituição "estruturalmente porosa" às influências do mercado financeiro, permitindo que os canais de acesso do setor privado permaneçam abertos e os freios dos poderes constituídos sejam perdidos.

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Entre os signatários de destaque estão Luiz Carlos Bresser-Pereira, professor de economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e ex-ministro da Fazenda, e Luiz Gonzaga Belluzzo, professor de economia da Unicamp e ex-secretário de política econômica do Ministério da Fazenda. A relação integral dos economistas que subscrevem o manifesto está disponível ao término desta matéria.

O manifesto argumenta que a PEC 65 compromete a fiscalização, o controle social e a responsabilização do Banco Central. Além disso, projeta um aumento da dívida pública e a criação de um modelo globalmente inédito, que combinaria total autonomia financeira e operacional para a autoridade monetária.

Risco de juros altos persistentes

O documento ressalta que a senhoriagem – a receita proveniente da emissão de moeda – é gerada a partir das condições macroeconômicas que o Banco Central tem a incumbência de gerir. A proposta, portanto, poderia gerar um conflito de interesses entre o objetivo público da instituição e seu próprio orçamento.

"O Banco Central passaria a se beneficiar financeiramente de cenários macroeconômicos que deveria, na verdade, administrar em prol do interesse público, e não em função de seu próprio orçamento", afirmam os economistas. Eles alertam que, como a senhoriagem está atrelada aos juros, a instituição poderia ter um conflito de incentivos para manter as taxas elevadas.

Atualmente, o Brasil detém a segunda maior taxa de juros reais globalmente, superada apenas pela Rússia, um país em conflito. A persistência de juros elevados é apontada como o principal fator impulsionador do crescimento da dívida pública nacional.

Senhoriagem: receita da criação de moeda para o Banco Central

Em 2021, uma lei foi aprovada e sancionada, conferindo ao Banco Central autonomia administrativa e operacional em relação ao governo. No entanto, a instituição ainda depende do Orçamento da União para financiar suas atividades.

A PEC 65 visa expandir essa autonomia, permitindo que o Banco Central retenha os recursos provenientes da senhoriagem. Estima-se que essa receita anual tenha sido de R$ 23,3 bilhões entre 2017 e 2025, um valor significativamente superior ao orçamento anual do BC, que totalizou R$ 4,8 bilhões no mesmo período.

"A senhoriagem representa aproximadamente cinco vezes o custo operacional do Banco Central", aponta o documento. Os economistas criticam que a PEC 65 "abre espaço legal para a apropriação patrimonialista da senhoriagem e confere imensa frouxidão fiscal ao BC", um cenário que consideram contraditório em relação aos cortes de gastos sociais demandados pelo mercado financeiro e pelo próprio presidente do BC, Gabriel Galípolo.

Defesa da PEC por Galípolo e instituições financeiras

A direção do Banco Central, sob a liderança do presidente Gabriel Galípolo, defende a PEC 65. O argumento central é que a instituição opera com recursos limitados para cumprir suas responsabilidades de fiscalização e regulação do sistema financeiro.

Curiosamente, a PEC 65 também encontra apoio entre os bancos privados, justamente as entidades que o Banco Central tem o dever de regular e fiscalizar. Tanto a Associação Brasileira de Bancos (ABBC) quanto a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) já se manifestaram publicamente a favor da proposta.

O polêmico caso da emenda do Banco Master

Os economistas que assinam o manifesto contra a PEC 65 trazem à tona o polêmico caso da emenda do Banco Master. Essa emenda, apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI), está sob investigação da Polícia Federal (PF) pela suspeita de ter sido redigida pela própria instituição de Daniel Vorcaro, com o objetivo de potencialmente ampliar a capacidade de fraude no sistema financeiro.

"Um Banco Central com autonomia orçamentária e desvinculado da supervisão parlamentar torna-se, por sua própria estrutura, um regulador mais vulnerável às pressões do setor que deveria regular", alertam os economistas. Eles apontam que os parágrafos 8º e 9º do novo artigo 164 do substitutivo proposto "ampliam os mecanismos de socorro financeiro de emergência".

Na visão dos especialistas, a PEC 65 aumenta a "vulnerabilidade do Banco Central à interferência política, de lobistas e do próprio setor financeiro" no processo de nomeação de diretores e na composição de seu quadro funcional.

Fragilização dos mecanismos de fiscalização

Os signatários do manifesto também destacam que a proposta desmantela os atuais mecanismos de fiscalização e responsabilização orçamentária, que hoje estão previstos na Lei Orçamentária Anual (LOA).

"A PEC 65 desmantela esses mecanismos de forma sistemática, retirando o Banco Central da LOA e enfraquecendo a jurisdição do TCU", afirma o manifesto.

O documento enfatiza que o Banco Central tem a prerrogativa de aprovar, supervisionar e até socorrer as mesmas instituições que, de forma indireta, contribuem para seu orçamento. "Essa é a definição clássica de um regulador capturado: um agente concebido para servir ao público, mas cujos incentivos o aproximam sistematicamente dos interesses dos regulados", conclui o manifesto.

Para os economistas, a PEC 65 fragiliza os mecanismos de controle social do Banco Central ao remover o orçamento da instituição da LOA. Essa medida, segundo eles, "reduz a capacidade de supervisão efetiva do Congresso, do TCU e da sociedade sobre decisões com amplo impacto macroeconômico".

Impacto na dívida pública

Os especialistas alertam que a medida proposta pela PEC 65 pode agravar a dívida pública do governo, uma vez que retiraria receitas do Tesouro Nacional, as quais passariam a ser controladas diretamente pelo Banco Central.

"Com a aprovação da PEC 65, a senhoriagem – a receita gerada pela emissão de moedas – deixaria de ser utilizada para abater a dívida pública. Ela seria considerada uma 'receita própria' do Banco Central, sem a obrigatoriedade de transferência para o Estado brasileiro", explica o documento.

Modelo único e sem precedentes globais

Os economistas signatários do manifesto refutam a justificativa do relator, senador Plínio Valério (PSDB-AM), de que a PEC 65 estaria em conformidade com as melhores práticas internacionais.

"Nenhum dos principais bancos centrais do mundo apresenta a combinação de autonomia financeira, isenção orçamentária e blindagem parlamentar que a PEC 65 busca instituir", afirma o documento. O manifesto detalha os modelos de bancos centrais em países como Estados Unidos (EUA), Reino Unido, na Zona do Euro e no Japão para sustentar essa alegação.

Signatários do manifesto

  • Luiz Carlos Bresser-Pereira - FGV, ex-Ministro da Fazenda
  • Luiz Gonzaga Belluzzo - Unicamp, ex-Secretário de política econômica do Ministério da Fazenda
  • Flavia Dantas – SUNY – Cortland
  • Pedro Paulo Zahluth Bastos - Unicamp
  • Élida Graziane - FGV e Procuradora do Ministério Público de Contas do Estado de São Paulo
  • Paulo Nogueira Batista Jr. – Economista
  • Leda Paulani – USP
  • Ladislau Dowbor – PUC-SP
  • Maria de Lourdes Rollemberg Mollo – UNB
  • Haroldo Silva - Presidente do Corecon – SP
  • Isabel Busato – UFRJ
  • André Modenesi – UFRJ
  • Lena Lavinas – UFRJ
  • Luiz Fernando de Paula – UFRJ
  • Vanessa Petrelli Corrêa - UFU
  • Carlos Aguiar de Medeiros – UFRJ
  • Rosa Maria Marques - PUC-SP
  • Simone Deos - Unicamp
  • Antônio Prado – Vice-Presidente do Corecon – SP
  • Adriana Amado - UNB
  • Pedro Rossi – Unicamp
  • Gilberto Bercovicci – USP
  • Larissa Naves de Deus Dornelas - UFPR
  • Marco Antônio Rocha - Unicamp
  • Juliane Furno – UFF
FONTE/CRÉDITOS: Lucas Pordeus León - Repórter da Agência Brasil